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27 abril 2010

09 setembro 2008


Uma história constrói-se assim, homenageando quem deixa marca, sem excessivas reverências, analisando o passado, construindo o presente e projectando o futuro. Foi nisto que constituiu a homenagem a José Saramago, segundo as suas próprias palavras “escritor e comunista”.

E naquele momento, breve, apinhado, a Festa e o Partido descreveram-se a si próprios.

31 agosto 2008


Mais uma vez foram os olhos.

Os primeiros transbordavam um misto de candura e resignação. Aquela mesma candura que sempre me acariciara a face com umas mãos tão carnudas quanto meigas. A resignação chegou com as maleitas. Muitas, que esta vida teve pouco de fácil.

Meses depois foram aqueles que ainda me assombram. Já vazios e petrificados mas plenos de força, daquela estirpe que mesmo derrotada não se rende. Uma lágrima apenas e um braço que se levantou para abrir e fechar uma mão em despedida. A voz já não existia, só uma respiração inquieta e inconformada. Os olhos, novamente os olhos, abertos, imóveis, são a imagem que me ofusca as outras memorias. 

Olhos perdidos, sim. Perdidos no tempo, que o juízo tem destas coisas. Quanto mais longe mais perto quer chegar. Perdidos mas meigos como poucas vezes os tinha visto. Foi aí que me apercebi do peso que uma vida pode ter. 

Num instante seguinte, olhos aflitos por nunca mais se fecharem. Olhos que se viram impotentes com o partir dos olhos de sangue, e olhos que de tanto ansiar também partiram.

Ontem entrei no quarto, procurei na cama ao fundo distinguir um corpo e fui incapaz. Só mais perto, e lá estava não metade do homem, mas metade do corpo. Os olhos, já com menos brilho, resignados a uma partida breve.

Aliás, são sempre os olhos.

23 abril 2008

Demorou, mas finalmente consegui ver o Nick Cave e as suas sementes ruins em concerto. Tenho a confessar-vos que é para mim muito reconfortante saber que ainda fazem barulho como ninguém.

“E agora, o que querem ouvir?”

14 abril 2008

Não bebeu café nem pintou os lábios. Deixou o roupão sobre a cama, lavou a boca com sabão macaco e penteou-se com um piaçá.

23 fevereiro 2008

Conheci-o algures entre duas palavras enquanto bebia um chá saborosamente quente. Fez-me companhia alguns minutos, os bastantes para sussurrar 3 frases anti-imperialistas, anti-monopolistas e anti outra coisa qualquer de que entretanto se esquecera.

Vi-o ontem. Está na mesma. 

21 setembro 2007


"Carlos Manuel" é como lhe chamam. Perguntei o nome só por curiosidade, mas agarrado veio logo a profissão: professor de crioulo, algures numa aldeia do norte.

17 agosto 2007



Gosto de entrar na Fnac e vasculhar os livros de fotografia. Gosto de os folhear tão devagar quanto o tempo mo permitir, enquanto tomo notas numa whishlist mental. Por vezes deixo-me convencer por um livro ou um disco que me sinto incapaz de deixar novamente abandonado na prateleira. Desta vez passei primeiro pela Bertrand.

Mesmo à entrada estava um molhe de livros manuseados a baixo preço. Rapidamente descubro alguns de fotografia. Passo os olhos por todos os que encontro, não muitos, meia dúzia, talvez menos. O olhar intenso de uma criança negra desvia-se de um jogo de futebol num campo de refugiados do Ruanda e centra-se na camera de Eli Reed. Gueorgui Pinkhassov encontra uma bola vermelha que se esgueira nas mãos de uma criança entre as sobras de Bouches-du-Rhône. As mesmas sombras que Alex Webb encontra em Port-au-Prince. É o futebol que une as imagens recolhidas por fotógrafos da Magnum. É um livro simpático, e por 5 € ganhou um lugar na minha estante. Com ele vieram também o “Divided Soul” de David Alan Harvey e o “Pictures from the Surface of the Earth” de Wim Wenders. Tudo por 30€.

Enquanto esperava pelas donzelas perdidas no supermercado ainda dei um salto à Fnac, mais puxado pelo vício do que outro motivo qualquer. Atalhando a direito até à estante dos livros que mais me interessam, adicionei novamente o “Exposure” à tal whishlist, que sempre que o fim do mês o permite, procuro reduzir numa livraria on-line.

Ainda antes de sair pousei o olhar no “Mr. Mkhize’s Portrait & other stories from the new South Africa” de Adam Broomberg e Oliver Chanarin. Na segunda página, negra, escreve-se assim:

Mr. Mkhize has been photographed twice before in his life.

The first was for his Pass Book, which allowed the apartheid government to control his movements.

The Second was for his Identity Book, which allowed him to vote in the first democratic elections in 1994.

Ten years later, we took his picture for no official reason.


Não resisti. Nem aqui nem mais à frente, já no meio dos discos de jazz, ao “Steamin’ with the Miles Davis Quintet”. Não resisti nem podia. Este raide ficou por menos de 10€...

Afinal sempre fiz bem em trazer apenas “O Principezinho” para ler estas férias.



Pêra, 8 de Agosto de 2007.

16 agosto 2007


Sabe-me bem chegar a casa e lembrar-me que os sapatos estiveram tão esquecidos que não fizeram a viagem de regresso.

04 julho 2007


Ainda não se vê na curva, mas já lhe sinto o cheiro no corpo. A água de sabor a sal, a luz que cega e a areia branca que teima em entrar em casa emprestada são agora uma memória que contrasta com o cansaço que não é tanto físico, mas que dói mais a cada madrugada destes vinte e tal dias que ainda me esperam.

04 março 2007


Álvaro é um amigo que viaja com alguma frequência. Afazeres profissionais, mas principalmente a volúpia, fizeram-no percorrer caminhos em várias partes do mundo. Alguns dos destinos já estão mais certos que outros, e em Havana e Paris encontrou amigos que visita com a regularidade possível. Na sua última viagem a Cuba calhou-lhe em sorte a companhia de uma jovem porto-riquenha que seguia até à Venezuela. Sentiu alguém sentar-se a seu lado, abriu os olhos, e o seu benfiquismo exacerbado recusou desviar o olhar de uma blusa vermelha de decote decentemente insidioso.

Ainda no início das muitas horas em que o voo cruza o Oceano, Consuelo mete conversa, naquele estilo ibero-americano alegre de viver, e compartilha algumas das suas histórias com o meu amigo. Trabalha em Caracas, no sopé do Ávila, há já dois anos. Nem parecia tanto tempo, desde que abandonou as fortalezas de San Juan, para seguir uma amiga com quem compartilha um apartamento. Toca piano e quando pode dá aulas, diz ela, enquanto ele não baixa guarda aos olhos de verdes de Consuelo - Eram um consolo, juro-te! O Álvaro é um tipo fechado, pouco fala, e muito menos de si, mas aos poucos é-lhe arrancada a profissão. É bancário, solteiro, e padece de uma misoginia mal resolvida. Afinal até gosta de mulheres, mas companhia certa é não é coisa que admita no seu espaço, onde até tem um Steinway onde assustadoramente martela Chopin. Já perto do fim da viajem, Consuelo confidencia que trabalha num cabaret frequentado pelas elites endinheiradas venezuelanas. Álvaro vai revisitar Havana, onde por hábito deambula as horas pela Cidade Antiga. Despreza Varadero, e o seu sonho é bombardear Guantánamo, e Consuelo confessa-se admiradora de Fidel, apaixonada por Che. Falam da vida cá e de lá, trocam endereços, e Álvaro começa a questionar se os seus 15 dias serão suficientes para ir a Caracas, só de fugida, um dia ou dois, não mais. Um copo mais tarde já tinha tudo combinado, Consuelo espera-o daí a 10 dias.

Começam a descer, e o Álvaro recebe um beijo de “boa sorte”, que retribui, completando a descida de mão na mão e olhos cerrados. Ainda hoje, apesar das muitas horas de voo, nunca superou o pavor – Esta estupidez é só nas aterragens, já viste? Não, infelizmente nunca viajámos juntos. As rodas tocam no solo, a travagem, o caminho até à gare e a calma regressa. Desapertam os cintos, levanta-se, recolhe a sua bagagem de mão e uma pequena mala bem colorida e perfumada. Ela agradece com um sorriso esperançoso. As portas já abriram e é quando começam penosamente a percorer a coxia em direcção a uma das portas que repara. Consuelo, atrás de si e amparada pelos bancos, cambaleia ligeiramente. É alta, e tal como ele, as muitas horas de imobilidade podem provocar aquele formigueiro dormente que tantas vezes o atormenta às chegadas. É finalmente em plena pista que conhece Consuelo.

-Puta que pariu, a gaja é coxa!

09 agosto 2006


nestes dias quentes, procuro descanso num qualquer recanto abrigado, daqueles que ainda se encontram na beira da estrada

24 janeiro 2006



Rosita corta as unhas descuidadamente no terreiro defronte à entrada. Dobrada, de rabo enorme a saltar perigosamente para fora das calças, aproveita o fraco sol do meio dia, neste Janeiro frio, enquanto os restos caem ruidosamente no chão de cimento gretado. Trauteia quase imperceptivelmente ao som de uma qualquer FM popular, prende na orelha profusamente violada uma madeixa de cabelo louro só até às raizes, e ensaia um passo de dança com a vassoura enquanto varre os 20 despojos, azuis como a camisa insidiosamente aberta, que ontem à noite usou.

Rosita compõe a saia, coloca o avental, verifica o menu e abre a porta. Lá dentro já cheira.


"my bloved monster" eels

27 dezembro 2005



A partida, pelas 7:45 no Barreiro abria o dia. Até aí o sonambulismo conduzia-me mudo. Uma busca apressada pelas cabeças que me rodeiam marca o despertar. Já tinham entrado e esperavam-me na varanda. Alguns conheço há anos, outros apareceram ontem conhecidos de um conhecido, hoje amigos, mas todos nós passageiros daquela varanda de sol sobre o tejo.

Lá dentro, os bancos corridos costas com costas e um átrio de entrada transformado em mesa de sueca, ajudaram a marcar uma época em que o longo e majestoso percurso entre margens era suavizado pela companhia.

Pela tarde, já depois das seis, encontro marcado na rua do crucifixo, junto à boca do metro. Após um passeio mais ou menos apressado, são tantas as vezes que o estômago nos impele para um salgado ou um gelado consoante a temperatura, a varanda espera-nos novamente. O grupo muda de viagem para viagem, a conversa é a mesma de sempre.

Este ritual terminou com a chegada das novas embarcações. Sem varanda, com todas as cadeiras alinhadas com a proa, o conforto agora sobrepõe-se ao convívio.

Não encontro entre o meu ror de defeitos o saudosismo, mas que o progresso tem uma certa tendência em retirar o sal dos dias parece-me pouco discutível.

09 novembro 2005



Deambulou pelas horas entre neblina e as ruas estreitas que se atravessaram abruptamente no seu caminho. Não ladrou ao cão nem bebeu café, afastou o cabelo dos olhos, sorriu a uma sarjeta e rasgou o papel de parede. Subiu a colina, passou pelas flores, pelo guarda freio e abrandou junto ao Julião. Pedro chora abundantemente, ata o sapato, aperta a gravata e entrega o cata-vento. Retém-se poucos minutos, e sai veloz pela força do odor a churros e farturas que em dia de finados teima em parar à porta do cemitério.